Com várias atividades e conferências, X COEMCO vai até amanhã, na Faculdade de Medicina
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A partir da esquerda: Higor Chagas Cardoso, mediador da mesa, Daniel Valsecchi, Tárik Kassem Saidah e Rodrigo Cariri (ao microfone), conferencistas
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A Faculdade de Medicina recebe hoje e amanhã (22/05 e 23/05) a décima edição do Congresso de Educação Médica do Centro-Oeste (COEMCO). A primeira ação do evento foi a mesa redonda intitulada “Perspectivas e Desafios à expansão da Residência Médica no Centro-Oeste”, que discutiu déficit de vagas, desigualdade na distribuição, precarização das bolsas e participação do SUS, uma vez que há um gargalo desafiador nessa etapa de formação dos médicos.
Mediada por Higor Chagas Cardoso, professor de medicina da UniEVANGÉLICA, de Anápolis, a mesa redonda ocorreu no Teatro Asklepiós, da FM, com a participação de Rodrigo Cariri Chalegre de Almeida, diretor de Programa da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES) do Ministério da Saúde, Tárik Kassem Saidah, vice-presidente da Comissão Estadual de Residência Médica (CEREM), e Daniel Valsecchi, médico residente de psiquiatria na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), da Universidade do Distrito Federal (UnDF).
O diretor da FM, professor Marcelo Rabahi, esteve lá para saudar os participantes e falou um pouco sobre a importância do COEMCO. Segundo ele, a prática médica passa necessariamente pela formação dos docentes e pelo modo como os docentes se envolvem nessa formação. “Essa é uma construção que deve ser feita em conjunto, com professores, alunos e diretores. Que a excelência do ensino médico possa ser gestada a partir de eventos como o COEMCO.”
Rodrigo Cariri falou das políticas de saúde pública, da necessidade de investimentos e como isso afeta a questão da residência. Segundo ele, há uma série de problemas que contribuem para a defasagem no programa de residência no Brasil inteiro. Um dos problemas é que o ritmo de crescimento na graduação é bem maior do que o ritmo de crescimento na especialização.
A proporção entre médicos especialistas e não especialistas era de 60/40, mas não é mais. O desequilíbrio ameaça abrir vantagem. Atualmente, no Brasil, existem 677.741 médicos, e 347.628 deles fizeram residência, tornando-se especialistas. Além disso, a procura por certas especialidades é baixa, e a concentração regional de especialistas é alta. Neste quesito, o Centro-Oeste não está mal. Só o Sudeste concentra mais especialistas do que nossa região.
O problema é que a desigualdade impera na relação entre centro e periferia, ou capital e interior. Outra evidência conjuntural é que, na região Centro-Oeste, Goiás está melhor servido de especialistas do que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Além disso, algumas especialidades têm baixa procura, como a residência em endocrinologia. “Ninguém quer mais, e o quadro de especialistas está envelhecendo”, diz Cariri.
O futuro tem de ser coletivo
Na avaliação de Tárik Kassem Saidah, essa crise de descompasso tem a ver também com o fato de a especialização ter mais complexidade do que a graduação. Em Goiás, diz ele, há um expressivo crescimento da capacidade formativa em residência médica, mas está concentrado em Goiânia e algumas cidades. E os médicos tendem a se fixar onde fazem residência, não migram para lugares mais ermos. Essa parte tem mais a ver com políticas públicas e investimentos específicos por parte do poder público.
Além desses problemas estruturais já apontados, segundo Saidah, as dificuldades na ampliação de vagas passam por pelo menos quatro questões. A primeira delas é a preceptoria. “O preceptor tem uma demanda, tem de ensinar, tem de se atualizar. E ele precisa ser valorizado.”
Neste sentido, treinamento e serviço estão interligados, porque têm a ver com as condições de ensino, e é a segunda dificuldade. A terceira é a estrutura de matriz de competência. “Ao colocar uma residência no interior, vou ter condição de ter uma cirurgia mais complexa? Uma cirurgia de vídeo, estágio de reprodução assistida? Tudo isso gera dificuldade na questão de interiorizar residência médica”, diz Saidah, que aponta a distribuição e o valor das bolsas para residentes como a quarta dificuldade.
Mas há caminhos que podem ser abertos, diz Saidah. Melhorar as condições de capacitação dos preceptores - “preceptoria é o elo essencial”, lembra Saidah -, sua valorização, a percepção de seu grau de importância, bem como as condições estruturais e o aumento das bolsas, tanto em valor quanto em números. E tudo isso deve ser feito com o envolvimento de todos. “O futuro precisa ser construído coletivamente”, conclui.
Já Daniel Valsechi, médico residente em psiquiatria na UnDF, em Brasília, diz que a maior dificuldade que a região Centro-Oeste enfrenta na questão de especialistas é a de reduzir os vazios no mapa da desigualdade. As cidades menores sofrem mais, porque, conforme já havia dito Saidah, ninguém se move do conforto conquistado, quando se forma e faz residência, em direção a novos perrengues nos rincões do país.
Segundo Valsechi, além da explosão do número de vagas de graduação, que a residência médica não acompanha, há pelo menos dois outros elementos impeditivos no fechamento da equação: a judicialização das vagas das residências, afetando diretamente os programas de políticas públicas como as cotas; e a baixa qualidade na produção de pesquisa nas especializações médicas.
Todo mundo escreve qualquer coisa, e isso não vai resultar em conhecimento aproveitável, diz ele. O baixo valor das bolsas também contribui para o baixo interesse em pesquisar.
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