Oficina O Bom Professor Nasce ou se Forma?, ofertada pelo NEXO, trata de nova reflexão sobre a docência na Faculdade de Medicina
Em 19/08/2026
Texto: Gilberto G. Pereira
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Com metodologia chamada de World Café, a oficina propõe que os participantes se reúnam em pequenos grupos, discutam e compartilhem experiências, numa construção coletiva de ideias |
O Núcleo de Experiência e Orientação Docente (NEXO) foi apresentado pela direção da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) no dia 4 de agosto, e já nasceu ofertando uma oficina que traduz bem o objetivo do novo centro de apoio aos docentes da FM, intitulada O Bom Professor Nasce ou se Forma?, ministrada pela professora Roberta Helena Fernandes Feitosa, que utilizou o resultado de sua pesquisa de mestrado na criação do curso.
Roberta Helena fez seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGES), da FM-UFG, defendendo a dissertação intitulada “O Bom Professor”: Percepções dos estudantes de medicina de uma instituição pública federal a partir das perspectivas da Didática, Formação Docente e da Prática Social. A ideia era ouvir os alunos da própria FM para entender o que para eles era um bom professor, que características precisava ter um docente para ser considerado por eles, ao longo do curso de Medicina, um bom professor.
A partir daí, duas coisas ficaram claras na cabeça de Roberta Helena. Primeiro, para ser um bom professor, não basta dominar o conteúdo ou ser um excelente médico, do ponto de vista técnico, isso é importante, mas tem de participar da formação dos alunos, contribuindo com seu desenvolvimento prático, intelectual e humanista. Mesmo assim, isso não é tudo, porque, em segundo lugar, vem o dinamismo da visão dos alunos, e eles, à medida que vão aprendendo, vão avançando seus interesses, e a figura do bom professor precisa acompanhar essa dinâmica ao longo da graduação.
À medida que esses alunos passam de ingressantes no curso para períodos mais avançados, eles vão buscando no professor novas formas de contato e aprendizado. “Para os primeiros anos, o bom professor tem um perfil acolhedor, com sensibilidade didática. Os critérios pedagógicos ao acolhimento emocional e à segurança emocional, à justiça de avaliação estão mais presentes aí”, diz a professora.
A partir do quarto ano, avalia Roberta Helena, o bom professor é aquele que consegue demonstrar melhor a integração entre a teoria e a prática, com uma atuação mais expressiva no cenário de prática. “É aquele que consegue acolher e ajudar os estudantes a fazerem a transição do ciclo mais teórico para a prática em si. E aí, esse bom professor já começa a funcionar como um mentor clínico. Para os alunos do sexto ano, o bom professor assume o papel de preceptor, é o que chamamos de role model [modelo do papel a ser desempenhado, ou padrão de comportamento, em tradução livre], ou seja, o professor é um modelo de profissionalismo, de atuação no campo de prática, de boa atuação, tanto em forma de conduta como também de atenção ao paciente.”
A reflexão é fundamental
De acordo com Roberta Helena, a partir desta perspectiva do que pode ser um bom professor, compreendida numa pesquisa que ouviu os próprios estudantes, é que foi montada a proposta da oficina, de criar um exercício coletivo para se entenderem os pontos de competência efetiva da docência, e como é possível atingi-los. Daí, o nome: O Bom Professor Nasce ou se Forma?. “A ideia é trazer esses achados de volta aos professores da instituição, não para dizer ‘este é o modelo que vocês devem seguir’, mas para mostrar dados que encontramos a partir de um público que é atendido por esses professores.”
Não se trata de um esforço individual de alguém tentando impor uma didática, diz Roberta Helena, mas sim a proposta de uma busca coletiva. “O objetivo é criar um espaço de reflexão sobre a nossa própria prática docente, onde possamos avaliar a forma como atuamos”, argumenta. “A ideia é que o professor consiga perguntar a si mesmo, que foi uma coisa que eu mesma me fiz: ‘Como eu ensino? Como o estudante percebe minha forma de ensinar? O que faço que favorece a aprendizagem do meu aluno, e o que posso mudar? Será que preciso mudar alguma coisa? Será que posso melhorar a integração com esse aluno? Consigo melhorar a relação com esse aluno e trazê-lo para o campo da aprendizagem, ajudar nessa aprendizagem?’; porque precisamos formar bons médicos. Esta reflexão é um dos pontos mais importantes da oficina” pondera.
Ou seja, a proposta da oficina é agregar o corpo docente da FM-UFG, incentivando-o pelas próprias experiências. “Colocamos essas experiências em diálogo com a percepção dos estudantes, para, a partir daí, buscarmos coletivamente possibilidades de fortalecimento do ensino médico da nossa faculdade através de um documento. O que queremos é provocar um efeito catártico mesmo de mudança, ou de melhoria, digamos assim”, diz Roberta Helena.
Segundo ela, a oficina piloto, do dia 4 de agosto, foi muito bem-sucedida. Foi utilizada uma metodologia participativa chamada de World Café, em que os participantes se reúnem em pequenos grupos, num ambiente de café mesmo, com chás, cafés, bolos e sanduíches (como se vê na foto desta reportagem), para discutirem e compartilharem experiências, numa construção coletiva de ideias. “Depois, expus os dados da dissertação, e por final fizemos um combo, um conjunto geral de tudo que foi feito naquela manhã. Na minha opinião, foi muito rico perceber que os resultados da pesquisa funcionaram como um ponto de partida, para que os próprios professores refletissem sobre sua docência, e o que eles trouxeram casou muito com o que os estudantes falaram também. Isso foi bem legal de perceber.”
Nesse momento, e nesse ambiente de conversa e troca de experiências, é que surge a resposta para a pergunta-tema da oficina. Afinal, o bom professor nasce ou se forma? Segundo Roberta Helena, a docência é uma atividade que pode e precisa ser aprendida, discutida, refletida e aprimorada continuamente.
“Estamos sempre aprendendo. Aliás, foi uma colega que sugeriu a pergunta-tema, a partir do título de minha dissertação. Então, já houve uma colaboração desde o comecinho. A pergunta é uma provocação mesmo, para que tenhamos essa proposta de mostrar que existem características pessoais, qualidades natas em muitos dos bons professores. Isso é inegável. Tem gente que nasce para ser professor. Mas, mesmo esse talento nato, nos dias de hoje, com tudo o que temos disponível, precisa ser aprimorado, treinado, burilado, para que se expanda cada vez mais. Por outro lado, aqueles que não se veem como professores, ou não acham que podem ser professores, se tiverem acesso às boas formações, podem descobrir, ou desenvolver, uma capacidade imensa de ensinar, talvez um dom que estava guardado”, ensina a professora.
Em relação à continuidade, a proposta agora é que a oficina passe a integrar a agenda do NEXO. “Estão previstas mais duas edições neste semestre, uma em setembro, ainda com data a ser definida, e outra em outubro. Provavelmente, uma quinta à tarde e outra sexta pela manhã, para conseguirmos receber outros professores que não puderam estar presentes na terça pela manhã”, informa Roberta Helena.
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