Aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde da FM aborda questões de inclusão e sustentabilidade social
Em 11/08/2026
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Junto com professores do programa (PPGES-FM), na sala do Conselho Diretivo da FM, alunos assistem à aula inaugural do segundo semestre, ministrada pela professora doutora Jacqueline Teixeira Caramori, da Faculdade de Medicina de Botucatu ((FMB)-UNESP) |
O Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGES) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG) realizou no dia 7 de agosto a aula inaugural do segundo semestre letivo e da nova turma de Mestrado, intitulada Formação em Saúde na Perspectiva da Inclusão e Sustentabilidade Social - um diálogo entre o Plano Nacional de Educação e as DCNs no Ensino em Saúde, ministrada pela professora titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), vinculada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), a nefrologista Jacqueline Teixeira Caramori. Ela apresentou seu conteúdo em teleconferência para os mestrandos do PPGES, que estavam na sala do Conselho Diretivo da FM.
De acordo com o Ministério da Educação, o Plano Nacional de Educação (PNE) define diretrizes, metas e estratégias para a política educacional, orientando ações educativas nas três instâncias de governo, municipal, estadual e federal. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) traduzem os princípios da PNE em normas pedagógicas práticas que organizam as matrizes curriculares das instituições de ensino.
O que a professora Jacqueline fez em sua aula foi analisar as questões estabelecidas nas duas linhas de políticas educacionais, a partir de uma leitura minuciosa de seus documentos, mostrando como dialogam entre si, onde se aproximam e onde se afastam. De acordo com a professora, em termos de inclusão, muito do que é proposto no PNE não se confirma nas DCNs como deveria.
Um dos gargalos mais visíveis deste contexto é o processo da própria política de inclusão, que permite os grupos socialmente vulneráveis ingressarem na instituição de ensino para fazer uma graduação ou uma pós-graduação, mas no meio do caminho tudo vai se definhando em termos de garantia, e os alunos vão ficando para trás. “Não há garantia de condições materiais que permitem que os quilombolas e indígenas, por exemplo, permaneçam como sujeitos ao longo de sua permanência na instituição, que não sejam apenas colocados para dentro do meio acadêmico, mas que tenham sua cultura trazida para dentro também”, diz a professora Jacqueline.
Segundo ela, falando da realidade ampla do país, essas garantias estão no PNE como diretrizes, mas não estão nas DCNs. “As diretrizes são fortes em reconhecer a entrada, mas ainda são silenciosas na questão dos mecanismos de redistribuição, de olhar para dentro para que a permanência seja atendida, e estou falando de coisa material, pois esses alunos precisam de bolsas, de moradia, de alimentação, de transporte, e isso não está dentro das DCNs.”
Na perspectiva da sustentabilidade
Na avaliação da professora, quando se trata de povos tradicionais, principalmente, as diretrizes precisam sair do PNE, atravessar as DCNs e abraçar as reais necessidades das pessoas que buscam essas políticas. “A escola precisa ter o diálogo de saberes, e desenvolver não só as políticas de acolhimento, mas tratar dos temas dos povos que ela está acolhendo. Ela precisa tratar de saúde da população negra, da população indígena, tratar do território. Ainda estamos muito aquém dessa adaptação para um currículo plural que inclui, com ações que têm de acontecer dentro de cada escola”, diz ela.
Os mecanismos de cobrança das instituições pelas diretrizes também são falhos, diz a professora. Segundo ela, os valores que medem a permanência do estudante precisam ficar claros e explícitos dentro de cada escola. “Nosso pais é muito grande, e isso pode variar muito em cada lugar, mas precisa ter esse monitoramento. O PNE traz o pluralismo da equidade, mencionando indicadores que medem a frequência de pessoas quanto a raça, gênero, nível socioeconômico, mas isso precisa estar dentro das DCNs também, para que de fato ele seja cobrado.”
Essas indefinições ainda estão matando o futuro de muitos alunos que ingressam nas instituições. Em se tratando do ensino médico, principalmente, o tempo de formação é longo e penoso. “Não podemos omitir a taxa de evasão. Não podemos omitir que nossos cursos são integrais e que necessitam dar esse apoio de permanência. Se a medicina exige um curso de seis anos, cinco na enfermagem, temos de ter um acordo institucional, que garantam essa permanência. Temos de ter um currículo plural e uma janela de autocuidado para que essas pessoas cheguem até o final”, comenta Jacqueline.
Para garantir que as diretrizes cumpram sua política de inclusão, avalia a professora, é necessário que tudo seja posto na perspectiva da sustentabilidade. A inclusão, portanto, deve ser mais do que colocar a pessoa dentro dos cursos. Também é preciso colocar nas matrizes curriculares a vivência, os saberes, a experiência de vida dessas pessoas, sua identidade, sua subjetividade.
A sustentabilidade se realiza nesse tipo de inclusão, porque vem junto um olhar diferente do olhar que dominou a sociedade e prejudicou o meio ambiente, vem um olhar de quem sabe dialogar com a natureza, como é o caso dos indígenas e dos quilombolas. É claro que a inclusão é uma política ampla e abrange questões da cidade também, grupos urbanos.
Um dos estudantes de mestrado do PPGES, Thiago André Ferreira dos Santos, por exemplo, comentou que está pesquisando sobre a inclusão de neurodivergentes (pessoas com desenvolvimento cognitivo diferente do padrão posto como típico pela sociedade). Mas, no caso da abordagem da aula inaugural, a referência foram os grupos tradicionais, ligados a territórios e culturas politicamente sub-representados e, portanto, socialmente vulneráveis.
E aí, ela cita o exemplo da Universidade Estadual de Goiás (UEG) que concedeu à matriarca e líder quilombola Procópia dos Santos Rosa (Dona Iaiá Procópia) o titulo de Doutora Honoris Causa, em 2022. “Ela é um exemplo de liderança dentro do território calunga, que se manifesta na íntegra da preservação do Cerrado. Oitenta por cento da vegetação do Cerrado está protegida no território Kalunga”, comenta a professora.
Crise climática
O PNE já menciona os saberes comunitários e tradicionais dentro da biodiversidade. E as DCNs propõem a temática para ser trabalhada a comunidade acadêmica. Ou seja, o material para trabalhar as questões de território e cultura, com sustentabilidade, vinculando a situações climáticas e meio ambiente está pronto. No centro disso, o destaque é a crise climática. Tudo está em jogo a partir dela.
Segundo a professora Jacqueline, no caso da DCN da medicina, o que falta agora é o exercício prático disso, é cada instituição, por exemplo, “exigir uma competência para atuar em emergências de desastres climáticos, e compreender que determinantes sanitários devem ser observados. Saúde comunitária vem como um tema dentro da DCN da medicina, e a enfermagem também inscreve a sustentabilidade e os desastres climáticos entre seus temas. Esse vínculo entre a crise do clima e o adoecimento das populações está pela primeira vez com clareza nas Diretrizes Curriculares Nacionais”, comenta.
O que falta agora, continua a professora, é pôr a mão na massa e trabalhar nessa direção. Cabe aos programas de graduação e de pós-graduação, como o PPGES, olharem para as questões postas e fazer a inclusão com sustentabilidade. “A tarefa do educador crítico é puxar os povos e os territórios que os documentos mencionam de passagem para o lugar de onde a crise climática teria de ser estudada. Então, se vamos estudar o clima nas nossas instituições, temos de trazer os povos e os territórios para que os documentos não sejam apenas um a menção.”
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