Projeto criado para conscientizar o racismo na medicina brasileira ganha prêmio máximo na França pela segunda vez
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A edição de 2026 do Festival Internacional de Criatividade de Cannes, o Cannes Lions, premiou com o Grand Prix o projeto brasileiro Nigrum Corpus, do Instituto de Educação Médica (Idomed), produzido pela agência Artplan, uma campanha de conscientização feita nos moldes de um livro fictício de medicina reproduzindo os maiores absurdos do racismo científico como doença contraída pelo profissional de saúde, para denunciar a discriminação racial nos tratamentos e na formação médica no Brasil.
O projeto ganhou o Grand Prix na categoria Glass: The Lion for Change. A laureação foi entregue pela segunda vez ao Nigrum Corpus. No ano passado, ele já tinha vencido na categoria Industry Craft. Mas estes foram apenas os prêmios máximos, porque, no total, foram sete premiações no Cannes Lions, ganhando ainda o Leão de Bronze, na categoria Creative Data, em 2026, e em 2025, dois Leão de Ouro, um na categoria Design e outro em Health & Wellness, além de um Leão de Bronze, em Health & Wellness.
No Brasil, em 2025, o projeto também ganhou o prêmio Marketing Contemporâneo, da Associação Brasileira de Marketing e Negócios, na categoria Responsabilidade Social. Embora o Nigrum Corpus seja uma peça de campanha publicitária, é também um manifesto, e sua mensagem é uma arte impactante sobre um dos maiores males das sociedades contemporâneas.
Um negro no ambiente da medicina, se não for como objeto de estudo ou como paciente, ainda pode ser visto como elemento estranho, e o fenômeno do estranhamento racista pode se manifestar de diversas formas, sejam elas silenciosas ou por meio de ações racistas explícitas. Na abertura do manifesto, a médica Jurema Werneck, uma das mais conceituadas ativistas antirracistas do país, diz: “O racismo mata. Mata porque nega atendimento, porque subestima a dor, porque considera corpos negros como descartáveis. O sistema de saúde no Brasil não apenas reflete essa lógica, mas a perpetua.”
Um médico racista não se torna racista ao pegar seu diploma, já era um estudante racista, que fora uma criança formada como pessoa num ambiente que lhe ensinou a ser racista. Como diz Nelson Mandela, ninguém nasceu odiando, há um aprendizado, e ele é oferecido tanto no seio familiar quanto nas estruturas sociais. Não só as pessoas, mas as instituições são importantes no combate ao racismo, como as escolas de ensino fundamental e médio, as faculdades, as igrejas, as instâncias de poder. Este trabalho mostra o que é o racismo na Medicina, mas, ao mesmo tempo, ensina também como atos racistas devem ser combatidos nas instituições de ensino e atendimento médicos.
O impacto do racismo
O manifesto traz, de forma irônica e ilustrativa, termos em latim como nomes de doenças originadas pelo racismo que afetam o atendimento médico e que impactam a pessoa negra atendida. Entre elas, as Doenças do Diagnóstico e da Percepção, como a Morbus Albus Diagnostica (Doença do Diagnóstico Branco) e a Ignorantia Medica Racismi Structuralis (Ignorância Médica sobre o Racismo Estrutural), as Doenças do Tratamento e do Cuidado, como a Syndroma Negligentiae Systemica (Síndrome da Negligência Sistêmica), as Doenças da Urgência e do Atendimento, como a Status Invisibilis (Estado de Invisibilidade), e as Doenças Históricas Sistemáticas, como a Racismus Nosocomialis (Racismo Hospitalar) e a Malum Matris Nigrae Neglectum (O Mal da Negligência à Mãe Negra). Por exemplo:
Dyschromia Diagnostica: “distúrbio clínico-institucional caracterizado pela falta de conhecimento, subestimação e diagnóstico tardio de doenças dermatológicas em pacientes negros. A falta de referências e de treinamento médico para identificar manifestações cutâneas em peles não brancas, resulta na omissão de diagnósticos importantes, como melanoma e dermatites graves, além da perpetuação de mitos raciais que influenciam condutas médicas.”
Syndroma Analgesia Racialis: “é uma condição estrutural caracterizada pela subestimação sistemática da dor e do sofrimento em pacientes negros, baseada na falsa crença de que possuem maior resistência à dor. Esse viés clínico resulta na inadequação do manejo da dor, impactando diretamente a qualidade de vida e os desfechos clínicos desses pacientes”.
Praejudicium Osseum: “é uma condição que afeta médicos e profissionais de saúde, levando-os a agir com viés racial na ortopedia. Essa ‘doença’ se manifesta por meio da crença equivocada de que os ossos de pessoas negras são mais resistentes, resultando em um atendimento desigual e prejudicial que retarda a assistência adequada.”
Dementia Negligentia: “é uma condição cognitiva progressiva que reflete a discriminação racial no atendimento à saúde. Caracterizada pelo descaso no diagnóstico e no encaminhamento de pacientes negros para exames de confirmação da doença de Alzheimer e outras demências. A doença provoca a falta de rastreamento precoce, comprometendo as possibilidades terapêuticas.”
O manifesto traz também depoimentos reais de quem sofreu esse tipo de racismo no ambiente hospitalar e os números da negligência médica sobre corpos negros, levantados por pesquisas sérias. O exemplo abaixo, de um depoimento assinado por Karyne Calixto, tem uma interseccionalidade do racismo com o abuso e a violência contra a mulher:
“Todos os anos, eu acabava internada devido às fortes dores. Um episódio em particular me marcou profundamente, antes mesmo de receber um diagnóstico. Durante uma dessas crises, fui ao Hospital Casa, no centro da cidade, onde fui atendida por um ginecologista – um homem branco. Expliquei meu histórico, e a primeira pergunta dele foi se eu estava grávida. Respondi que não, mas ele insistiu: ‘Tem certeza?’ Ignorando minha negativa, decidiu fazer um exame de toque.
Durante o procedimento, a dor foi insuportável, e eu gritei. Sem qualquer empatia, ele debochou: ‘Nossa, que escândalo! Pra que isso?’ Só então solicitou um exame de sangue. Quando o resultado confirmou que eu não estava grávida, ele ironizou: ‘Olha, que surpresa!’ Saí de lá e procurei outra unidade, onde fui internada por uma semana. Foram mais de cinco anos até finalmente descobrir que o motivo de tantas crises era a endometriose.”
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