A psiquiatria se tornou fundamental na política de saúde pública, dizem estudantes de Medicina que escolheram a especialidade
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Estudantes da Liga de Psiquiatria da FM/UFG, em atendimento durante o Impacto, em Piracanjuba. A partir da esquerda: Luís Filipe Dias Marinho, Maria Luisa Alves Pontes e Gabriel Caixeta |
Desde sua criação no século XVIII, com Philippe Pinel, a psiquiatria mudou muito. Se a demanda na sua origem era tirar os “loucos” (alienados e desajustados) da masmorra, onde também se confinavam os criminosos comuns, hoje, ela desempenha um papel fundamental na política de saúde pública, principalmente no que diz respeito a males como ansiedade e depressão, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), se tornaram epidemias silenciosas no século XXI.
Os profissionais dessa área se equilibram entre a sensibilidade de entender o ser humano na sua vulnerabilidade e o cuidado de si mesmos, porque também são humanos nadando no mesmo rio da existência. Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), que escolheram a especialidade para representar nas Ligas Acadêmicas de Medicina, falam sobre as principais demandas da profissão.
“Defendemos muito que a psiquiatria é para todo mundo”, diz Jude Dalila Lima Almeida, estudante de Medicina da UFG, presidente da Liga de Psiquiatria, que estava na cidade de Piracanjuba no dia 13 de junho, onde as Ligas atenderam a população local, no programa Integração Médica para Apoio às Comunidades e Tratamento Orientado (Impacto), organizado pela Coordenação de Extensão da FM. Segundo Jude, o grupo da Liga estava ali para fazer uma ação focada no transtorno do vício em apostas online, oferecidos pelas casas chamadas bets.
Esse tipo de vício, diz Jude, causa impactos de pelo menos três naturezas, mental, física e financeira. Ou seja, é um devastador combo de prejuízo multisetorial. Não é à toa que a imprensa, que não esteja envolvida nos altos ganhos com publicidade das bets, tem reportado casos de pessoas que perdem tudo muito rapidamente.
“No começo, tem toda a adrenalina envolvida, a sensação de euforia e expectativa de ganhar dinheiro, mas depois vêm as dívidas, e aí, o apostador começa a se desestruturar completamente. E ele não sabe procurar ajuda, não entende bem o que está acontecendo. Além disso, contra ele há uma coisa que o viciado em drogas ilícitas não tem, a publicidade avassaladora das bets toda hora na cara dele”, diz Jude.
A essa altura, a pessoa já está desestabilizada mental e financeiramente, e tudo a seu redor pode começar a ruir. Depois disso, se não tiver um apoio sólido da família para buscar ajuda, é só ladeira abaixo. A ansiedade e os transtornos psíquicos impactam o corpo, podendo induzir a pessoa a se automutilar, ou a ter transtornos gastrointestinais, como gastrite, diarreia. “Muito disso está associado à ansiedade e à depressão”, diz Jude.
Segundo ela, a depressão em si é um transtorno neuroinflamatório, ou seja, que faz o cérebro inflamar. Isso faz afetar os hormônios e sua funcionalidade no dia a dia, e, como consequência, afeta também a imunidade do corpo. Por isso, muitas outras doenças para a quais a pessoa tem predisposição podem aparecer. “Veja o que uma depressão acarreta. O vício do jogo é um fator de risco para outros transtornos, outros sintomas psiquiátricos e também para outros vícios, como o uso abusivo de substâncias tóxicas”, diz Jude.
Impacto social
O impacto mental decorrente do abismo entre expectativa e realidade provocado pelo vício em apostas online pode levar pessoas ao suicídio, ou elas acabam se tornando mais violentas. “Isso tem um impacto social muito grande nas famílias, que vão ficando desacopladas, e o vínculo familiar começa a se perder”, comenta Jude. Segundo ela, a psiquiatria ajuda pessoas a se reequilibrarem, com terapias e uso de medicação, mas não é um trabalho que se faça unilateralmente. Muitas pessoas que passam por problemas de dependência, precisam de acompanhamento de psicólogos e de assistentes sociais também.
No dia desse atendimento em Piracanjuba, o grupo da Liga de Psiquiatria atendeu algumas pessoas, entre elas, uma jovem senhora cujo caso era do marido que se viciara em bets. “A família ruiu, eles se divorciaram, e o ex-marido tentou o suicídio. Ela acabou se emocionando muito aqui na nossa frente”, disse a futura médica.
Exercícios de semiologia como estes que os estudantes da FM fazem são importantes. No caso da psiquiatria, demonstram o quanto a especialidade entrou nas questões sociais, a ponto de hoje ser fundamental nas políticas de saúde pública. Segundo o estudante Gabriel Caixeta, vice-presidente da Liga de Psiquiatria, tratar enfermidades como o vício em apostas é uma tarefa complexa porque as pessoas têm dificuldade de notar que é um problema. “Por isso, é importante o apoio da família, e é bom também buscar apoio especializado em redes como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)”, diz.
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