X COEMCO 2026

A anatomia da inclusão - professores e estudantes de Medicina dissecam o tema no X COEMCO

X COEMCO 2026
A partir da esquerda: Francis Solange Tourinho, Vitória Alves Caetano, Miguel A. Toledo e Thalles Eduardo Ribeiro

 

A inclusão, no tema intitulado “Até que ponto a educação médica é Diversa, Equânime, Inclusiva e Acessível (DEIA)?”, foi o objeto de debate da mesa redonda da manhã de sábado (23/05) do X Congresso de Educação Médica do Centro-Oeste (COEMCO). Mediada pelo estudante de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente-discente do evento Thalles Eduardo Ribeiro, a mesa contou com palestras de Miguel A. Toledo, professor da UFG, Francis Solange Tourinho, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Vitória Alves Caetano, estudante de Medicina da Universidade de Brasília (UnB).

Se os tempos estão mudando, com o advento das novas tecnologias, em todas as áreas e no mundo inteiro, a medicina não ficaria de fora. Mudaria pelos novos ventos, simplesmente, ou estrategicamente. Professores e alunos de Medicina do Centro-Oeste brasileiro entendem que a mudança precisa ser estratégica.

Por isso mesmo, para aliar a sofisticação do uso da robótica e da Inteligência Artificial nas salas de cirurgia e de atendimento médico com a política de saúde universal do Estado brasileiro, a palavra de ordem é equidade.

Segundo Francis Tourinho, a equidade é um dos parâmetros mais democráticos dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), e, para ela funcionar, é preciso equalizar o acesso. A inclusão é a política de equalização, não só em relação aos serviços, mas também sobre o perfil social e racial dos estudantes de Medicina. “Entender que nós chegamos em tempos diferentes é fundamental. A dificuldade de chegar é a barreira, a política da inclusão é o elemento equalizador”, diz.

Espelho

Miguel A. Toledo segue essa mesma toada de pensamento. “Mudar a cara da medicina é um imperativo ético e constitucional”, diz ele. Essa cara já está mudando. Quando a professora Francis chegou ao palco do teatro Asklepiós, da FM, onde ocorreu a mesa redonda, ela olhou para a plateia de futuros médicos e disse: “É algo muito impactante me ver na plateia.”

Durante muitos congressos de que Francis participou, quando era estudante nos anos 1980 e começo dos anos 90, ela não se via entre seus pares. Mulher negra, que hoje usa roupas marrons depois do trauma da adolescência de ouvir que pessoas negras não podiam usar marrom porque era feio, Francis conhece bem a importância da inclusão. Hoje, a plateia de estudantes de Medicina está começando a se tornar espelho. “Poder me ver na plateia tem tudo a ver sobre o que estamos falando aqui.”

A inclusão tem a ver com diversidade, que possibilita o espelho social, racial e de gênero para todo mundo, mas também precisa oferecer a acessibilidade - como a construção de rampas e elevadores especiais, pisos táteis, Libras - e tratamento equânime.

Palavras e gestos importam

Mesmo assim, a inclusão estará incompleta se a ela não se adicionar um ingrediente fundamental, básico e absolutamente necessário, o fator humanista, que está alojado na ética, que o professor Miguel Toledo mencionou anteriormente, sem o qual a estrutura não funciona, e que Vitória Caetano, PcD auditiva, enumerou bem: afeto, o bom afeto, compreensão, um gesto de paciência, uma palavra mensurada pelo carinho na hora de orientar.

Segundo Vitória, há muitas e boas leis que garantem a inclusão, mas depois de ingressar na universidade, muitas vezes o estudante é deixado lá, como quem larga uma criança num barco todo equipado, mas sem ninguém para navegar junto. No seu caso, ela é deficiente auditiva, e fala pelo seu grupo nas suas dificuldades de estar naquele lugar.

“Todo mundo na cadeia estrutural da universidade, especialmente os professores, na linha de frente, tem de entender que o PcD acumula adversidades na sala de aula desde que começou a estudar”, diz Vitória. “Há momentos em que tudo de que precisamos é compreensão dessas adversidades, uma palavra de incentivo, uma demonstração de preocupação, de interesse pelo aluno”, pondera.

Inclusão também é sobre acolher. E é disso que Vitória fala, da economia de afetos. Ela se refere aos PcDs, mas pode ser qualquer grupo socialmente vulnerável. “O ambiente ideal da acessibilidade é oferecer condições ao aluno, afirmar sua capacidade, dizer que a deficiência não define sua competência, é ajudar a refinar suas experiências, porque ele não é burro.”

É só dar a mão que o aluno vai longe, e não se trata do curso em si, mas da pessoa. “Queremos muito estar aqui, ser médicos, ser engenheiros, só que as vezes não conseguimos por essas barreiras, porque a consciência da falta disso é a sobrecarga, a invisibilização, o adoecimento e a evasão silenciosa”, comenta Vitória.

Categorias: NOTÍCIA